Brasil – Lula está solto, mas ainda não livre

O grande capital e seus associados na mídia, judiciário, executivo e legislativo insistem no objetivo de eliminar Lula e o que ele representa.

Pode soar incrível. Saíram da boca do usurpador Bolsonaro duas palavras úteis além de bravatas escatológicas de padrão fascista: Lula está “momentaneamente solto”.

Mais do que despeito diante do revés imposto aos golpistas, a definição guarda significado estratégico. O grande capital e seus associados na mídia, judiciário, executivo e legislativo insistem no objetivo de eliminar Lula e o que ele representa. A decisão do Supremo é sintomática: cederam-se alguns anéis para tentar outro bote para recuperá-los (com lucro) mais à frente. Sobretudo mantiveram-se os dedos que apertam gatilhos simbólica e literalmente, como aconteceu com Marielle/Anderson.

Os elogios derramados ao presidente do STF pelo voto de minerva mal abafaram o constrangimento. Nem bem terminou a sessão, Toffoli saiu a dizer que o Congresso pode mudar o decidido pouco antes. “Basta uma emenda”. Quanta hipocrisia. Nenhuma das chamadas cláusulas pétreas pode ser modificada exceto por outra Assembleia Constituinte. Nenhuma. Entre elas, as relativas a direitos e garantias individuais, como a do direito à defesa até o último recurso ser julgado. A Constituição é inequívoca a respeito –assim como inequívoco é o percurso tortuoso de Toffoli nos tribunais.

É indiferente então que Lula tenha saído da solitária? Nem um tolo pensaria isto. Trata-se de uma vitória tática da maior importância. Deixe-se em papelada o raciocínio malabarista de que Lula fora da cadeia favorece a direita, disposta a se reaglutinar com receio do fantasma petista. Pensamento tão razoável quanto imaginar que o inimigo solto, mesmo momentaneamente, é mais seguro do que preso!

Dúvida? Com a palavra Steve Bannon, um dos gurus da extrema direita, conselheiro de todas horas da famiglia Bolsonaro e ex-queridinho de Donald Trump: “Lula é uma figura trágica […] ele é alguém que foi corrompido por dinheiro e poder. É evidente e, para mim, isso agora vai causar uma enorme perturbação política no Brasil”.

Bannon sabe do que fala. Já para o povo pobre do Brasil, para os democratas de verdade, o alcance da liberdade provisória de Lula ficou expresso nas demonstrações incontidas de alegria, satisfação e esperança. Impossível para quem deseja um país decente ficar imóvel diante da recepção a Lula tanto em Curitiba como em São Bernardo. Se Lula ainda não está livre das acusações que pesam sobre ele, é fato que o recuo imposto aos golpistas tornou-se um combustível pronto a incendiar-se diante de um governo interventor.

Agenda de ruínas

Lições da história demonstram que o Brasil reúne as chamadas condições objetivas para entrar nos trilhos da democracia. Os de baixo não podem mais viver como agora. A miséria se alastra a toda velocidade; direitos trabalhistas e previdenciários viraram pó; o setor público vem sendo desmantelado impiedosamente; a soberania nacional sofre ataques sucessivos; estatais são vendidas na bacia das almas; os parcos ganhos salariais dos anos pré-golpe começam a ser revertidos. E o desemprego permanece nas alturas, mesmo com as maquiagens estatísticas de “informalidade”, “intermitência” e outros eufemismos abjetos. O esmagamento das liberdades e das minorias, a entrega do poder a milicianos e o desprezo pelo povo equivalem à expressão política necessária para o êxito da agenda de ruínas.

Só que no topo da pirâmide o ambiente está longe de ser tranquilo. Mesmo o mais cínico dos extremistas de direita sabe que a “vitória” de Bolsonaro emergiu da fraude e da manipulação descaradas, a começar pelo banimento de Lula das eleições. O capitão medíocre foi o que restou aos tubarões assustados com o desmoronamento das candidaturas de direita tidas como “civilizadas”. Há, porém, um desconforto inquietante nessa esfera em face da brutalidade da gangue aboletada no Planalto. Também medo de que a implosão do PSL exponha mazelas muito maiores e fétidas além da fronteira do partido.

A divergência não é de fundo, claro. Preocupa esta “gente limpinha”, alinhada desde sempre com os golpistas, que a desfaçatez bolsonarista multiplique a oposição às contrarreformas, cuja aprovação é objetivo maior da elite apodrecida. O pano de fundo internacional não ajuda, com as grandes potências travando uma batalha encarniçada para assegurar fatias crescentes do mercado. Isto num momento em que os próprios teóricos neo-liberais do FMI, Banco Mundial e Cia. admitem que a economia mundial patina e o horizonte se torna mais e mais sombrio.

Não à toa Trump faz gato e sapato do “grande aliado” Bolsonaro, transformado o Brasil em chacota mundial. As multinacionais esnobam Guedes e seus asseclas nos leilões de petróleo e exigem benefícios ainda mais indecentes. Em resposta, Guedes providencia mais contrarreformas para chilenizar o Brasil a toque de caixa antes que aventureiros de outros países o façam. O golpe na Bolívia que derrubou Evo Morales –responsável por um dos maiores índices de crescimento e inclusão social em seus governos– prova que o grande capital não está para brincadeira. Ele compreende muito bem a origem da onda de revoltas espalhadas mundo afora.

Ninguém se engane: neste cenário, a artilharia contra Lula de forma alguma arrefeceu. Seu nome está associado à ideia de conquistas sociais, de liberdade, democracia, menos desigualdade e limites à exploração desenfreada. Tudo o que contradiz a cartilha do grande capital. Obrigados a recuar um pouco, os donos do dinheiro já anunciam nova ofensiva em todas as instâncias. Provocadores esparramados em redes sociais também não pensarão duas vezes em passar das palavras à ação. Contam com a mesma impunidade que cerca, por exemplo, a famiglia Bolsonaro, os assassinos de Marielle/Anderson e o poder miliciano infiltrado no Estado. O reforço da segurança do ex-presidente Lula é questão de honra para o movimento popular, assim como a anulação de todos os processos mentirosos abertos contra ele.

A melhor defesa é o ataque. Como bem disse Lula, o combate imediato é contra a agenda de destruição do Brasil colocada em prática desde a derrubada de Dilma Rousseff. Algo muito maior que uma guerra de palavras parlamentar ou batalha de twitters. A disputa, mais do que nunca, ocorre na ação: nas ruas, nos bairros, nas escolas, nas empresas, nas estatais, no comércio, nos movimentos sociais, nos agrupamentos de desempregados, nas caravanas pelo Brasil –na recusa permanente a todos os atos, leis e decretos que atentam contra a dignidade, sobrevivência e livre manifestação.

Lula é insubstituível como alavanca dessa contraofensiva progressista. Instrumento necessário para organizar os pobres e democratas, tanto quanto para construir uma frente política à altura das urgências do Brasil. O sucesso ou fracasso desse confronto cotidiano vai ditar o prazo de validade de Bolsonaro no poder.

Fuente: Portal CTB / Ricardo Melo é jornalista, ex-presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e apresentador do programa ‘Contraponto’ na rádio Trianon de S.Paulo (AM 740).

 

Lula está suelto pero aún no está libre

El gran capital y sus asociados de medios, judiciales, ejecutivos y legislativos insisten en el objetivo de eliminar a Lula y lo que él representa.

Lula Lievre 2

Puede sonar asombroso. De la boca del usurpador Bolsonaro salieron dos palabras útiles además de la bravuconería escatológica del patrón fascista: Lula es  «liberado momentáneamente».

Más que a pesar del revés impuesto a los estafadores, la definición tiene un significado estratégico. El gran capital y sus asociados de medios, judiciales, ejecutivos y legislativos insisten en el objetivo de eliminar a Lula y lo que él representa. La decisión del Supremo es sintomática: se dieron algunos anillos para intentar otro bote para recuperarlos (con fines de lucro) más tarde. Sobre todo, los dedos que aprietan los disparadores se mantuvieron simbólica y literalmente, como sucedió con Marielle Anderson.

Los elogios del presidente del STF por el voto de Minerva apenas ahogaron la vergüenza. Tan pronto como terminó la sesión, Toffoli continuó diciendo que el Congreso podría cambiar la decisión poco antes. «Solo una enmienda». Tanta hipocresía. Ninguna de las llamadas cláusulas de piedra puede modificarse excepto por otra Asamblea Constituyente. Ninguna. Estos incluyen los relacionados con los derechos y garantías individuales, como el derecho de defensa hasta que se juzgue la última apelación. La Constitución no es ambigua al respecto, al igual que el curso tortuoso de Toffoli en la corte.

¿Es indiferente que Lula se haya ido solo? Ni un tonto pensaría eso. Es una victoria táctica de suma importancia. Deje que el malabarista de papel razone que Lula sale de la cárcel favorece a la derecha, dispuesta a regocijarse por miedo al fantasma petista. ¡Pensar tan razonablemente como imaginar que el enemigo liberado, incluso momentáneamente, es más seguro que estar atrapado!

¿Duda? Con la palabra Steve Bannon, uno de los gurús de extrema derecha, consejero de la familia Bolsonaro de todos los tiempos y antiguo amor de Donald Trump: “Lula es una figura trágica… es alguien que ha sido corrompido por el dinero y el poder. Es evidente y, para mí,  esto ahora causará una gran perturbación política en Brasil”.

Bannon sabe de lo que está hablando. Para los pobres de Brasil, para los verdaderos demócratas, el alcance de la libertad provisional de Lula se expresó en las manifestaciones de alegría, satisfacción y esperanza. Imposible para aquellos que desean que un país decente se quede quieto frente a la recepción de Lula en Curitiba y São Bernardo. Si Lula aún no está libre de los cargos en su contra, es un hecho que el revés impuesto a los golpistas se ha convertido en un combustible listo para encenderse ante un gobierno interviniente.

Horario de ruinas

 

Las lecciones de la historia muestran que Brasil cumple con las llamadas condiciones objetivas para seguir el camino de la democracia. Los de abajo ya no pueden vivir como lo hacen ahora. La miseria se extiende a toda velocidad; derechos laborales y de seguridad social convertidos en polvo; el sector público ha sido desmantelado despiadadamente; la soberanía nacional sufre ataques sucesivos; se venden en la cuenca de las almas; Los escasos aumentos salariales de los años anteriores al golpe comienzan a revertirse. Y el desempleo sigue siendo alto, incluso con la composición estadística de «informalidad», «intermitencia» y otros eufemismos abyectos. El aplastamiento de las libertades y las minorías, la entrega del poder a las milicias y el desprecio por el pueblo son la expresión política necesaria para el éxito de la agenda de la ruina.

Pero en la cima de la pirámide, el ambiente está lejos de ser tranquilo. Incluso los extremistas de derecha más cínicos saben que la «victoria» de Bolsonaro surgió del fraude y la manipulación flagrantes, comenzando con la prohibición de Lula en las elecciones. El capitán mediocre quedó con los tiburones asustados por el colapso de las candidaturas de derecha consideradas «civilizadas». Sin embargo, existe una inquietante incomodidad en esta esfera ante la brutalidad de la pandilla abolida en la meseta. También teme que la implosión de PSL exponga enfermedades mucho más grandes y fétidas más allá de la frontera del partido.

La divergencia no es sustantiva, por supuesto. A estas «personas limpias», siempre alineadas con los golpistas, les preocupa que los bolsillos de la imprudencia multipliquen la oposición a las contrarreformas, cuya aprobación es el objetivo principal de la élite podrida. El telón de fondo internacional no ayuda, con las grandes potencias librando una amarga batalla para asegurar el aumento de las cuotas de mercado. Esto es en un momento en que los propios teóricos neoliberales del FMI, el Banco Mundial y la Compañía admiten que la economía mundial está cayendo y el horizonte se está volviendo más y más oscuro.

No es de extrañar que Trump haga gato y zapato del «gran aliado» Bolsonaro, convirtió a Brasil en una burla mundial. Las multinacionales desaprueban a Guedes y sus secuaces en las subastas de petróleo y exigen beneficios aún más indecentes. En respuesta, Guedes ofrece más contrarreformas para chilenalizar a Brasil en el tono de llamada antes de que lo hagan los aventureros de otros países. El golpe de estado en Bolivia que derrocó a Evo Morales, responsable de una de las tasas más altas de crecimiento e inclusión social en sus gobiernos, demuestra que las grandes empresas no son una broma. Él entiende muy bien el origen de la ola de disturbios en todo el mundo.

No se equivoquen: en este escenario, la artillería contra Lula no se ha enfriado de ninguna manera. Su nombre está asociado con la idea de logros sociales, libertad, democracia, menos desigualdad y límites a la explotación desenfrenada. Todo lo que contradice la cartilla del gran capital. Obligados a retirarse un poco, los dueños del dinero ya anuncian una nueva ofensiva en todos los casos. Las burlas de las redes sociales tampoco lo pensarán dos veces antes de pasar de las palabras a la acción. Tienen la misma impunidad que rodea, por ejemplo, a la familia Bolsonaro, a los asesinos de Marielle / Anderson y al poder de la milicia infiltrado por el estado. Fortalecer la seguridad del ex presidente Lula es una cuestión de honor para el movimiento popular, así como la anulación de todos los procedimientos mentirosos en su contra.

La mejor defensa es la ofensiva. Como dijo Lula, la lucha inmediata es contra la agenda de destrucción de Brasil que ha estado vigente desde el derrocamiento de Dilma Rousseff.  Algo mucho más grande que una guerra de palabras parlamentaria o una batalla de tweets. La disputa, más que nunca, ocurre en acción: en las calles, en los vecindarios, en las escuelas, en las empresas, en las empresas estatales, en el comercio, en los movimientos sociales, en grupos de desempleados, en caravanas en todo Brasil, en la negativa permanente de todos. Actos, leyes y decretos que socavan la dignidad, la supervivencia y la libre expresión.

Lula es insustituible como palanca para esta contraofensiva progresiva. Instrumento necesario para organizar a los pobres y demócratas, así como para construir un frente político que satisfaga las urgencias de Brasil. El éxito o el fracaso de esta confrontación diaria dictará el mandato de Bolsonaro en el poder.

Fuente: Portal CTB / Ricardo Melo es periodista, ex presidente de EBC (Empresa Brasil de Comunicación) y presentador del programa ‘Contrapunto’ en la radio Trianon de S.Paulo (AM 740).

 

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