Brasil – A realidade das mulheres negras

Lidiane Gomes é secretária da Igualdade Racial da CTB-São Paulo

A sociedade de maneira geral insiste que a injustiça não existe já que “as oportunidades são iguais para todos”. Essa falácia do capitalismo liberal é facilmente desconstruída quando analisamos a realidade histórica. Hoje podemos conhecer e discutir um pouco mais sobre a condição de sermos mulheres, negras e pobres.

Por outro lado, a luta para que os não negros e os negros (que não se reconhecem em sua história) compreendam a importância de assumir que não existe no Brasil igualdade social e racial ainda carece de muita persistência. Não devemos acreditar que o problema são as pessoas que não aproveitam as oportunidades. Trata-se de outra falácia. O problema não são as pessoas, mas a falta de empregos, de escolas adequadas, de sistema de saúde público de qualidade, de acesso à cultura, a lazer, ou seja, a direitos básicos que devem ser garantidos a todos os seres humanos, segundo qualquer Constituição, incluindo a nossa. Nesta batalha, as mulheres negras encontram ainda mais dificuldade.

Não desfilamos em grande número como juristas, médicas, empresárias, docentes universitárias, acadêmicas e entre tantas outras profissões e ocupações consideradas importantes na sociedade. Para enfrentar e debater todas estas questões, em 1992 ocorreu o primeiro Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, em Santo Domingos, na República Dominicana. Entre alguns dos resultados deste encontro estão a criação de uma rede de mulheres que permanece unida até hoje e do Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha, lembrado todo 25 de julho, data reconhecida pela ONU ainda em 1992, e marcada pela Marcha que ocorre em vários países.

Mujeres NegrasEssas mulheres que carregam na cor da pele o fardo da escravidão estão na base da pirâmide social. Por isso, recebem os mais baixos salários e ocupam os mais desvalorizados serviços. Durante a escravidão seus corpos pertenciam ao dono das terras, das lavras ou dos comércios. Com a abolição, seus corpos passaram a pertencer a qualquer um que se achasse dono da sua existência. O trabalho feminino na indústria, principalmente na têxtil, onde a maioria dos empregados era mulher, não incluiu as negras. A indústria as expulsou do mercado de trabalho.

Assim, no Brasil e em vários lugares da América Latina e Caribenha, mulheres negras foram trabalhar como prostitutas, cuidadoras, amas de leite, empregadas domésticas. Adoeciam e não recebiam tratamento médico. Mulheres morreram aos montes quando a medicina não avançava em suas descobertas.

Hoje, continuam morrendo com diagnósticos demorados e inconclusivos pelo sistema de saúde público pensado para não salvar vidas negras. As meninas negras trabalham e permanecem nos estudos por mais tempo do que os meninos, ajudam nos serviços domésticos, cuidam dos irmãos menores, ou ainda, têm bebês para amamentar logo aos 15 anos. Não terminam os estudos, esperam até seus filhos ficarem maiores e se matriculam no Ensino de Jovens e Adultos (EJA).

Como não tiveram acesso à educação de qualidade em suas trajetórias de vida é mais difícil con vencer suas filhas da importância do letramento e de transformar seu intelecto na mais poderosa arma de combate às injustiças. Com tantos outros aspectos que poderiam ser problematizados aqui, o intuito deste texto é reforçar que a história de escravidão, de racismo, de exclusão social, de violência, de solidão e de exploração conecta cada vez mais uma rede que ao externar seus problemas e admitir a realidade, essas mulheres bradam aos quatro cantos da América que elas resistiram, resistem e continuarão resistindo.

Porém, o que difere a História atual com as passadas é que são mulheres cada vez mais emancipadas, empoderadas, conscientes do seu papel político e social, pois sabem que são maioria numérica, estudam mais, conhecem mais à revelia do que foi lhes fadado e, principalmente, ensinam. Meninas negras precisam de exemplos que estão espalhados pelas Américas. Basta um clique no mouse para reunir mulheres ao redor do mundo em uma boa roda de conversa. Aguardo convite!

 

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